Acertando os pontos, por Pedro Melo - Maio 2010
Postado por Jornal Tribuna do Agreste / Pedro Melo01 de Maio de 2010
Nascido em Olinda, estudou na Bahia para ser cidadão de Lajedo. Dr. Antônio Dourado Cavalcanti partiu no dia 16 de abril de 2010, após uma longa e produtiva permanência entre nós.
Médico, chegou a Lajedo pela necessidade de profissionais que já naquela época era um problema que os governos procuravam solucionar através da concessão de benefícios aos que se dispunham a fixar residência no interior.
Pelos seus conhecimentos conquistou posição privilegiada entre os moradores do local se tornando-se uma referência na pequena e promissora vila que mais tarde se transformaria na progressiva Lajedo.
Ao conhecer a Srta. Maria da Penha e Silva, da conceituada família Ferreira dos nossos fundadores, encontrou o motivo que lhe levaria a definitivamente permanecer em Lajedo. Com ela se casou e teve como produto deste enlace o nascimento de cinco filhos homens, tendo um deles seguido o seu exemplo na profissão médica e dois enveredado pelos caminhos da política.
O Dr. Dourado, como era chamado, foi uma figura que exerceu forte influência nos costumes do nosso povo e da nossa terra. Foi incisivo na defesa de Lajedo e muito importante na história da sua emancipação política.
Adepto do futebol, chegou a jogar profissionalmente pelo seu querido Sport Club do Recife, tinha nas corridas de cavalo o seu hobby favorito e através de uma fogosa égua de nome Dandoca, importada da Bahia e transportada pelo meu saudoso pai (Zé Nicolau), sob os cuidados do zeloso jóquei Jorge, pai do brilhante advogado Dr. Jorge Wellington, para a nossa cidade, levou o nome da então pequena Lajedo para todo Pernambuco por meio das espetaculares vitórias nas pistas (prado) de sua propriedade.
Foi um médico respeitado pelos colegas da região e do Estado, tendo, inclusive, recebido recentemente uma homenagem da categoria, através do CREMEPE, pelo zelo com que se dedicava à profissão havendo sido referência no atendimento obstétrico em toda região. Contemporâneo de médicos famosos na redondeza como o Dr. Lívio Valença, de São Bento do Una e do Dr. Lessa em Garanhuns, exerceu o ofício por mais de cinqüenta anos, até ser substituído pelo seu primogênito que lhe sucedeu profissionalmente.
Ao ingressar na vida pública foi prefeito de Lajedo e Deputado Estadual mas conseguiu a proeza de não misturar a política com a profissão e, diferente de outros, manteve seu patrimônio sem jamais permitir que se confundisse o público com o privado. Em uma ocasião contou-me da surpresa do prefeito de Canhotinho ao lhe devolver o “troco” de uma obra que tinha ficado sob sua responsabilidade. Tem com certeza um lugar garantido na crônica política de nossa cidade pela sua própria história, além de ter tido a alegria de ver em vida um dos seus filhos prefeito de Lajedo, outro deputado por Pernambuco e um neto vereador do nosso Legislativo.
Político de visão, manteve-se na liderança da política local durante 30 anos por sempre favorecer a pluralidade na escolha daqueles que governariam Lajedo, sem permitir que houvesse repetição dos escolhidos. Perdeu a liderança quando deixou de ouvir o “barulho dos silenciosos”.
A história julgará a sua participação e definirá a importância do seu papel no cenário político e social da nossa terra. Neste momento recuso-me a fazer qualquer juízo de valor visto que o objetivo deste artigo é somente prestar uma homenagem ao colega médico e o homem público que se vai, e atestar a minha solidariedade a dor da sua perda pelos seus entes queridos.
Digna de nota também foi a maneira eficaz como conduziu a educação de seus filhos pois, no tempo do “você sabe com quem está falando”, nunca permitiu que os “filhos do doutor” utilizassem dessa prerrogativa para se beneficiar sobre os demais. Sempre lembro da “raiva” que um dos seus filhos mais novos tinha por ter que ir e vir a pé para a “rua” nas férias, enquanto um Opala novinho “descansava” na garagem.
Homem de muitos amigos, porém de pouca convivência social, mantinha-se antenado no Brasil e no mundo entretanto o que mais ele sabia era do dia-a-dia de Lajedo através das visitas diárias dos seus velhos e jovens camaradas que numa espécie de edição diária relatavam-lhe tudo que se passava nos quatro cantos da nossa cidade, o que frequentemente fazia com que muitos fatos ocorridos chegassem primeiro ao seu conhecimento.
Bom anfitrião e um excelente “garfo” o Dr. Dourado sempre surpreendia seus convidados com um refinado cardápio. Quem privou de sua amizade e por um motivo, ou por outro, freqüentou a sua casa, com certeza sentou à sua mesa e foi bem servido, pois esta era uma arte cultivada por ele e pela sua esposa, com um registro especial para o café (verdadeiro jantar), das cinco da tarde.
Advertido pelo seu filho, um dia, de que deveria evitar cruzar os limites de sua porteira, esquivei-me ao dissabor de ser constrangido, não comparecendo ao seu velório e/ou sepultamento, retribuindo assim a visita que recebi pela ocasião da perda do meu genitor, além de perder a oportunidade de fazer-lhe pessoalmente minha última homenagem. No entanto, reservo-me o direito de reverenciar este ilustre personagem da minha terra com este artigo, através do mesmo canal em que tanto critico a atuação de um dos seus filhos como governante da nossa cidade, para deixar bastante claro que as idéias podem e devem ser combatidas enquanto os homens podem e devem ser respeitados.
Dr. Pedro Melo, médico









