Silentes, por Gonzaga Júnior

Postado por O Jornal
17 de Agosto de 2011
A Constituição de 1988 trouxe em seu corpo um importante direito, consubstanciado na liberdade de expressão. A Carta Política teve bastante êxito em resguardar este direito, uma vez que à época de sua promulgação, saía-se de um contexto repressivo. Uma das finalidades da última ditadura era justamente repelir quaisquer informações que contrariassem o interesse dos governantes.
Conquanto para alguns historiadores a redemocratização no Brasil não tenha passado de uma farsa, onde prevaleceu os antigos interesses elitistas, não se pode esquecer o alto teor democrático da constituinte de 1988. O art. 5°, IX assegura a liberdade de expressão. Embora o mesmo não possa ser tomado como um direito absoluto, é certo que esta prerrogativa possui grande respaldo democrático. É com fundamento neste direito, caro leitor, que hoje você tem acesso a várias notícias pertinentes ao cenário político brasileiro e mundial. Liberdade de expressão aqui necessita ser avaliada como um grande benefício para nossa recente democracia.
Lamentável é que nem sempre essa liberdade comova e alcance muitos homens públicos. Estes deveriam ter a mais plena consciência de que é liberdade de informação e pensamento que possibilitam a construção de uma sociedade melhor.
De uma forma até mesmo inocente, mas reflexiva questiona-se: por que muitos ainda insistem em silenciar, em obstruir o direito à informação, tendo em vista que esta é uma de nossas grandes conquistas pós-ditadura? A resposta beira ao senso comum, mas não deixa de ter seu resquício de verdade: “eles” não querem que o povo tenha conhecimento, que o povo pense. A palavra bem dita pode ser mais poderosa do que se imagina. Pode levar luz às trevas; traz conhecimento para quem não o tem e endossa o pensamento daquele melhor esclarecido. Ou seja, a palavra tem de fato um poder transformador.
O que me preocupa é perceber que muitos dos escolhidos para gerir a coisa pública distorçam ou manipulem o direito à liberdade de expressão, através do uso de propaganda desmedida, apenas em seu benefício. Quando o uso da palavra alerta seu povo quanto aos eventuais erros cometidos na gestão pública ou quando a palavra revela outros graves problemas sociais, para que ao menos as pessoas questionem suas escolhas políticas (exercício essencial para nós que engatinhamos em democracia), para alguns, nada é mais pertinente que o silêncio. Porém, a palavra que revela os fatos incomoda a camarilha, mas não devemos esquecer que a sua finalidade maior não é incomodar, é conscientizar. A dor é útil, porque revela que o corpo não está bem; a palavra é essencial, porque evidencia os problemas de um lugar, fazendo com que o protagonista (ao menos em tese) da vida política, o povo, tome as providências necessárias para sanar o que há de errado. Neste contexto, a palavra fere, mas ela é imprescindível. Embora muitos preguem o comodismo, acreditando ser preferível anestesiar a ferida com propagandas e festas (como se vê em muitas cidades brasileiras), nada melhor para nossa sociedade que a “dor” da palavra, pois ela pode dilacerar de vez o corpo estrutural da corrupção, através de uma nova conscientização política.
Para quem anui a injustiça, a ilegalidade, eis o silêncio, grande herança deixada pela Ditadura Militar. Para quem deseja uma sociedade mais igualitária, na qual de fato se preze a coisa pública e a dignidade popular, eis a palavra como um importante instrumento. Veja-se a liberdade de expressão, grande conquista vinda com a nossa constituinte. Como já mencionado, o perigo consiste justamente no silêncio dos bons. Lembre-se leitor, o direito à informação é uma conquista que não deve ser apenas teorizada, mas experimentada no cotidiano. Afinal, trata-se de um direito. É este acesso que permite a transformação social e a prática cidadã. Quem dera um dia muitos políticos que se dizem líderes, entendam o valor da palavra e da crítica, para um país em que a democracia é um constante desafio.

Compartilhe esta notícia