Resgatando História, por Antônio Oliveira: Os clarins de Momo
Postado por Antônio Oliveira / OJ01 de Fevereiro de 2011
Da minha infância guardo a recordação d’O Galo Preto, bloco de Zefa de Joaquim Inspetor, que descia o Carretel (atual rua João Pessoa), com a “gota serena”, as pastoras trajando longos vestidos de ganga florida, cantando suas canções ingênuas, ao som do violão de mestre Cassimirinho.
Inaugurado o Clube Diversional de Lajedo, com uma sociedade mais estruturada, o nosso carnaval só teve a ganhar. Ali se realizariam festas memoráveis.
Do final da década de 50 até o início dos anos 70 a folia fez história. Era uma das fases brilhantes do rádio, quando intérpretes do porte de Marlene e Emilinha Borba, das irmãs Batista (Linda e Dircinha), de Carmen Costa, provocavam “furor” com seus sambas e marchinhas,especialmente compostas para o tríduo momesco. Foi a época romântica das marchas-rancho e de tantas melodias outras que se tornariam imortais.
Em Pernambuco dominavam os rasgados frevos de rua, Capiba e seus frevos-canção, as “evocações” de Nelson Ferreira, os belíssimos frevos de bloco das líricas agremiações do Recife, sem esquecer os impressionamentes cortejos dos reis negros do maracatu.
Dentro desse clima de arte e de boa música nosso carnaval floresceu. As comemorações tinham início a partir do sábado à noite com o desfile do Zé Pereira (herança que nos legou Portugal), prolongando-se até às primeiras horas da manhã da quarta feira de cinzas, quando os foliões, acompanhados da orquestra, deixando o clube, invadiam as ruas onde os feirantes começavam a armar as barracas destinadas ao seu comércio semanal.
Havia o corso, que era o passeio das famílias, em carro aberto, pelas vias da cidade. Suspenso no ar o inebriante cheiro do lança-perfume; batalhas de confete e serpentina, e os endiabrados papangus (mascarados, às vezes vestidos de mulher), que aterrorizavam os moleques e os cachorros de rua. À tarde dava entrada o bloco oficial que arrastava verdadeira multidão, visitando a residência das pessoas de destaque da localidade, onde eram servidas bebidas e comedorias. À noitinha todos se recolhiam para logo mais ter início o baile.
O clube resplandecia de luzes, artísticas decorações, gente bonita e bem vestida, coloridas fantasias as mais originais. No palco, comandando seus músicos, o maestro Josué, da vizinha cidade de São Bento do Una e, mais tarde, criada a Banda 24 de Dezembro, o tenente Viana e seus pupilos atacando os sucessos antigos e os atuais. Mestre Viana foi o “papa” do nosso carnaval.
A folia acabou; os clarins do rei Momo já não ecoam mais por aqui.
Com o advento do chamado “carnaval fora de época”, o que presenciamos é a adesão de um número cada vez maior de pessoas alienadas a pular freneticamente atrás de um trio elétrico, do alto do qual pretensos cantores e mulheres em trajes sumários gritam músicas vulgares, de uma pobreza melódica absoluta, de sentido dúbio, quase sempre com forte apelo erótico implícito. Vendo-os e ouvindo-os em seu desatino, a gente se põe a indagar: Meu Deus, por onde andam o bom gosto e o senso estético das criaturas?
É, o carnaval morreu mesmo e com ele o nosso alumbramento. Hoje pairam sobre todos, sobre tudo, os sombrios crepes de uma eterna quarta feira de cinzas.









