Resgatando História, por Antônio Oliveira : O camarada que se foi

Postado por Antônio Oliveira / O Jornal
01 de Abril de 2011
Meu relacionamento com o Dr. Antônio Dourado data de 1937, justamente quando ele, jovem médico recém-formado, vindo da Bahia, aportava por estas bandas. Lajedo era uma pequena vila, distrito de Canhotinho.
Naquele longínquo setembro, com apenas três anos de idade, vitimado que fui por terrível acidente que, literalmente, deixou-me as pernas esmigalhadas, foi dele que recebi os primeiros e inadiáveis socorros, tendo o concurso de Dona Luizinha (sua companheira na época) e da senhora Carmelita Alexandre. Para com os três contraí tamanha dívida de gratidão que, acredito, jamais se extinguirá.
Daquele tempo à esta parte nossa aproximação veio tão somente a se consolidar. Pela sua mão entrei no serviço público. Em 1953, Lajedo já cidade, ele seu segundo prefeito eleito, fez-me nomear funcionário da Prefeitura, repartição na qual permaneci por longos vinte e quatro anos, galgando quase todos os níveis funcionais: de escriturário a secretário de vários prefeitos.
Inteligente, sensível e versátil, gostava de mostrar-me os primorosos textos que escrevia para seus discursos.
Ao fundarmos o Teatro Amadorista de Lajedo (TAL) foi designado seu presidente de honra. Quando deputado conseguiu do Governo do Estado uma verba a título de subvenção para o grupo. Entusiasta do nosso trabalho, jamais deixou de comparecer aos espetáculos de estreia. À noite lá estava ele, ao lado de Maria da Penha, logo nas primeiras filas, a prestigiar-nos. Numa ocasião, atendendo ao seu pedido, encenamos em sua residência a peça Uma Vez na Vida, em homenagem a irmã, Dona Maria José, que viera visitá-lo.
Em 1962, sendo secretário da mesa apuradora das eleições realizadas naquele ano, fui denunciado ante o Tribunal Regional Eleitoral (juntamente com o juiz da comarca, o Dr. Antônio Lira e Sousa), sob a acusação de haver trapaceado na contagem de votos, a seu favor, então candidato a deputado. Nada, porém, ficou comprovado.
Foi o idealizador da bandeira do município. No dia em que trouxe o original, executado por artista do Recife, fomos os primeiros a admirá-lo: eu e Arlindo Ferreira.
Comparecia sempre aos eventos sociais, em especial os bailes e inesquecíveis festas carnavalescas na sede do antigo Clube Diversional de Lajedo, nos quais se sobressaia graças a sua animação, espírito arguto e observador, sua agradável companhia.
No lançamento do meu segundo livro Lembranças da Primavera, dia em que coincidiu com o do seu 86º aniversário natalício (30.09.1995), apesar de já fragilizado, fez questão de fazer-se presente, brindando-me com um belo e significativo discurso.
Certa feita enviou-me uma pasta contendo papeis impecavelmente digitados. Explicou-me por telefone tratar-se dos originais de suas memórias, as quais havia ditado à uma jornalista. Pedia-me que desse uma “vistinha” e escrevesse alguma coisa a respeito. Retruquei-lhe que não me encontrava à altura de formular uma crítica sobre trabalho seu. Ele foi peremptório: “No livro tem uma folha em branco, destinada a você. Se não quiser escrever nada, aponha pelo menos sua assinatura que me darei por satisfeito.” Sensibilizado, atendi-lhe a solicitação e redigi algumas notas à guisa de preâmbulo que, modéstia à parte, muito o contentaram. Dias depois voltou a telefonar-me, agradecendo, afirmando que eu o havia emocionado, transportando-o aos velhos e bons tempos. Senti-me gratificado.
Que outros enalteçam o político, o administrador, a figura de homem público que foi; minha reverência vai para o médico, o intelectual, o esteta, o “camarada”, como costumava tratar os seus mais aproximados.
Não fui ao seu velório, também não compareci ao sepultamento. Continuo não acreditando na morte e abominando todo aquele macabro aparato com que a cercam. O que chamam de “morte” nada mais é do que uma transição, um portal que se rasga para um plano superior, para uma dimensão muito além das nossas limitadas concepções.
Esta, minha mensagem no primeiro aniversário de seu desaparecimento.

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