Resgatando História, por Antônio Oliveira : O camarada que se foi
Postado por Antônio Oliveira / O Jornal01 de Abril de 2011
Naquele longínquo setembro, com apenas três anos de idade, vitimado que fui por terrível acidente que, literalmente, deixou-me as pernas esmigalhadas, foi dele que recebi os primeiros e inadiáveis socorros, tendo o concurso de Dona Luizinha (sua companheira na época) e da senhora Carmelita Alexandre. Para com os três contraí tamanha dívida de gratidão que, acredito, jamais se extinguirá.
Daquele tempo à esta parte nossa aproximação veio tão somente a se consolidar. Pela sua mão entrei no serviço público. Em 1953, Lajedo já cidade, ele seu segundo prefeito eleito, fez-me nomear funcionário da Prefeitura, repartição na qual permaneci por longos vinte e quatro anos, galgando quase todos os níveis funcionais: de escriturário a secretário de vários prefeitos.
Inteligente, sensível e versátil, gostava de mostrar-me os primorosos textos que escrevia para seus discursos.
Ao fundarmos o Teatro Amadorista de Lajedo (TAL) foi designado seu presidente de honra. Quando deputado conseguiu do Governo do Estado uma verba a título de subvenção para o grupo. Entusiasta do nosso trabalho, jamais deixou de comparecer aos espetáculos de estreia. À noite lá estava ele, ao lado de Maria da Penha, logo nas primeiras filas, a prestigiar-nos. Numa ocasião, atendendo ao seu pedido, encenamos em sua residência a peça Uma Vez na Vida, em homenagem a irmã, Dona Maria José, que viera visitá-lo.
Em 1962, sendo secretário da mesa apuradora das eleições realizadas naquele ano, fui denunciado ante o Tribunal Regional Eleitoral (juntamente com o juiz da comarca, o Dr. Antônio Lira e Sousa), sob a acusação de haver trapaceado na contagem de votos, a seu favor, então candidato a deputado. Nada, porém, ficou comprovado.
Foi o idealizador da bandeira do município. No dia em que trouxe o original, executado por artista do Recife, fomos os primeiros a admirá-lo: eu e Arlindo Ferreira.
Comparecia sempre aos eventos sociais, em especial os bailes e inesquecíveis festas carnavalescas na sede do antigo Clube Diversional de Lajedo, nos quais se sobressaia graças a sua animação, espírito arguto e observador, sua agradável companhia.
No lançamento do meu segundo livro Lembranças da Primavera, dia em que coincidiu com o do seu 86º aniversário natalício (30.09.1995), apesar de já fragilizado, fez questão de fazer-se presente, brindando-me com um belo e significativo discurso.
Certa feita enviou-me uma pasta contendo papeis impecavelmente digitados. Explicou-me por telefone tratar-se dos originais de suas memórias, as quais havia ditado à uma jornalista. Pedia-me que desse uma “vistinha” e escrevesse alguma coisa a respeito. Retruquei-lhe que não me encontrava à altura de formular uma crítica sobre trabalho seu. Ele foi peremptório: “No livro tem uma folha em branco, destinada a você. Se não quiser escrever nada, aponha pelo menos sua assinatura que me darei por satisfeito.” Sensibilizado, atendi-lhe a solicitação e redigi algumas notas à guisa de preâmbulo que, modéstia à parte, muito o contentaram. Dias depois voltou a telefonar-me, agradecendo, afirmando que eu o havia emocionado, transportando-o aos velhos e bons tempos. Senti-me gratificado.
Que outros enalteçam o político, o administrador, a figura de homem público que foi; minha reverência vai para o médico, o intelectual, o esteta, o “camarada”, como costumava tratar os seus mais aproximados.
Não fui ao seu velório, também não compareci ao sepultamento. Continuo não acreditando na morte e abominando todo aquele macabro aparato com que a cercam. O que chamam de “morte” nada mais é do que uma transição, um portal que se rasga para um plano superior, para uma dimensão muito além das nossas limitadas concepções.
Esta, minha mensagem no primeiro aniversário de seu desaparecimento.









