Resgatando a história, por Antônio Oliveira

Postado por O Jornal
29 de Dezembro de 2011
Reza a tradição que a muitos, muitos anos, mais de 200, talvez, naquela pequena aldeia perdida entre os contrafortes dos Alpes austríacos, o cura preparava seu sermão para a missa da meia noite – a Missa do Galo –, pois era noite de Natal, quando pancadas discretas ouviu-se a porta. Impaciente por não ter concluído seu trabalho, foi atender. Tratava-se de um humilde campônio que vinha solicitar-lhe fosse batizar seu filhinho que acabava de nascer, longe, numa das montanhas que circundavam o vale.
A noite era fria, nevava muito. O cura, agasalhando-se, partiu com o homem, a fim de cumprir seu dever.
Ao chegar a pobre cabana sentiu-se estranhamente perturbado. Ao ver o casal com o recém-nascido, afigurou-se-lhe estar diante da Sagrada Família, muito embora entre as duas nada houvesse em comum. Mas era como se tudo começasse de novo, ante seus olhos corporificava-se o milagre de Natal.
Alvoroçado desceu a montanha, de volta à igrejinha. Pelos caminhos via seus fiéis portando tochas, a se dirigirem à missa de logo mais. Sentindo-se inspirado parou e memorizou a letra de um belo poema, transcrevendo-o logo ao chegar a aldeia.
O mestre-escola, seu amigo, jovem, feito ele, maravilhou-se com a poesia e, como era músico, em pouco tempo compoz-lhe uma melodia. Como o órgão da igreja encontrava-se quebrado, a partitura foi escrita para duas vozes e uma guitarra, que era o instrumento da predileção do cura.
E foi assim que naquele longínquo Natal, em um lugarejo esquecido entre os Alpes, ouviu-se pela primeira vez as estrofes da canção famosa:
“Noite Feliz! Noite Feliz! / O Senhor, Deus de amor, / Pobrezinho nasceu em Belém.
/ Eis na lapa Jesus, nosso bem, / Dorme em paz, ó Jesus! Dorme em paz, ó Jesus!”
Só quando o órgão foi restaurado é que os dois amigos puderam executar sua música. O mestre do conserto, que tinha bom ouvido, depois de ouvi-la uma segunda vez, decorou-a, levando-a para Zillertal, onde quatro irmãos da família Strasser aprenderam-na e principiaram a cantá-la, não apenas nos Natais familiares, divulgando-a também por toda a Europa, em audições que se tornaram marcantes, pois possuíam belíssimas vozes. Por eles Noite Feliz tornou-se conhecida em muitos países e, hoje, onde quer que se comemore o Natal, não há quem não a entoe, não importando o idioma em que se expresse:
“Noite Feliz! Noite Feliz! / Eis que no ar vêm cantar / Aos pastores os anjos do Céu / Anunciando a chegada de Deus, / De Jesus Redentor! De Jesus Redentor!”
Diz-se que a primeira música de Natal foi a cantata dos anjos nas campinas de Belém: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade!” Infelizmente desta não se conhece a melodia.
Assim sendo é de todo plausível elegermos Noite Feliz como a mais emotiva música natalina, aquela que mais nos fala ao sentimento, cujos acordes nos remontam aos idos dos nossos primeiros anos – a melodia-símbolo da cristandade, a enternecedora Canção do Céu!

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