“Meu pai foi um aventureiro, filho de um marinheiro europeu que, desertando do seu navio foi fixar-se no sertão de Pernambuco. Nicácio Correia de Menezes, seu Nicácio, como era amplamente conhecido, nasceu em 1904 no Sítio dos Bauzeiros, na época pertencente ao município de São Bento do Una.
“Caçula de uma numerosa família, herdou do pai a habilidade de trabalhar com couro, tornando-se exímio artesão na confecção de arreios para cavalos e utensílios de vaqueiro, de onde tirava o sustento para os seus.
“Casou muito cedo com Dona Ladu, esposa dócil e submissa que o acompanhava a toda parte, com a qual teve três filhos: Maria que morreu na primeira infância, eu (Ricardo) e Lia (Maria Adelaide).
“Além de sua arte fabricava o melhor queijo da região com o leite fornecido pelas vaquinhas que criava, gostando muito de cozinhar, motivo pelo qual era constantemente convidado para festas onde fazia bonito no preparo de almoços e jantares, em casa de amigos, nas fazendas da redondeza.
“Organizava romarias para o Joazeiro do Padre Cícero. Para tanto alugava um pau-de-arara, cobrava as passagens dos devotos, defendendo assim alguns trocados.
“Mudando-se para Lajedo, foi morar à Praça Santo Antônio, em frente à casa de seu Severino Lacerda e Dona Diamantina, onde instalou um hotel com alguns dormitórios.
“Seu espírito de aventura fez com que vendesse a casa de morada e comprasse um caminhão velho a Pedro Mariola, de Belo Jardim. O motorista era Pato Choco; no entanto o veículo de boleia larga de madeira chocava mais que o motorista, quebrava de palmo em palmo. Logo veio a falência. Vendê-lo foi um alívio.
“A seguir alugou o casarão que pertenceu a José Pereira de Carvalho, montando um restaurante que funcionava nos dias de feira. Logo mais transfere-se para Cachoeirinha, adquirindo outro, ao lado da igreja matriz, progredindo satisfatoriamente no novo empreendimento .
“Não tarda muito, apaixona-se por uma de suas funcionárias, levando-a para São Paulo, de onde voltou sem mulher e sem dinheiro. “Em Cachoeirinha recomeçou do nada. Salvou-o seu antigo ofício na arte do couro. Adquire uma outra residência e constitui uma nova família.
“Entretanto o chamamento de Lajedo era muito forte: as águas claras dos Caldeirões e a sombra acolhedora dos pés de tambor não lhe saem da mente. Afinal seu Nicácio está pacificado, regressa à nossa cidade, onde vem a falecer aos 96 de idade, no último ano do século.
“Um homem comum, cumpridor de sua palavra. Como seu Nicácio existiram e existem pessoas em nosso meio, com a mesma honradez.
“Gostava de agradar, de dar presentes. Trabalhar era seu vício. Não ia a festas e tinha a língua um pouco apimentada. Confiava demais nas pessoas, e em sua ingenuidade certa vez caiu na armadilha de um espertalhão, guardando um pacote de tijolo, como se fosse dinheiro, em pagamento de uma dívida.
“Apreciava jogar no bicho, quando arriscava alguns cruzados; reclamava da vida, mas logo se levantava, recuperando a confiança, anulando o prejuízo.
“Orgulhoso, nada pedia aos filhos. Estes, todavia, nunca lhe faltaram em obediência ao princípio da previdência de que são eles os provedores dos pais na velhice. Criou-os para a sociedade, jamais tendo seu nome maculado de alguma forma”.
Que esta homenagem sirva de exemplo, de reflexão, a quem interessar possa.









