Morre o homem, permanece a história

Postado por O Jornal / Luciana Bezerra
01 de Maio de 2010

Em 16 de abril de 2010, Lajedo perdeu um de seus mais ilustres moradores: o centenário Antonio Dourado Cavalcanti, o popular “doutor Dourado”. Ao longo de sua vida, ele colecionou inúmeras vitórias e realizações no campo pessoal e político, que o transformaram num ícone da história de Lajedo.
Em agosto de 2006, eu tive a oportunidade de conversar com ele a fim de conhecer melhor sua interessante história. Uma das coisas que ele disse na ocasião foi ter tido naquele ano vários motivos para vibrar de alegria: a volta do Sport Clube do Recife para a primeira divisão do futebol; a vitória nas eleições do sobrinho José Mucio (eleito deputado federal mais uma vez) e do filho Marcantônio Dourado (que se elegeu pela sexta vez deputado estadual) e a formatura como bacharel em Direito do filho caçula Mucio Dourado.
Emoções como essas na vida do “doutor Dourado” são contadas no livro “Dr. Antonio Dourado Cavalcanti. A Baraúna do Agreste”, da escritora pernambucana Ivonete Batista Xavier. O título do livro é uma alusão a uma poesia feita em homenagem a Antonio Dourado, onde ele é comparado com uma baraúna, uma árvore comum no agreste, que se caracteriza por ser resistente, com uma madeira difícil de quebrar. Assim como a árvore, “doutor Dourado” superou muitas adversidades na vida, sobretudo após sua chegada em Lajedo, por onde começa a narrativa da obra.
A biografia do médico, esportista e político é certamente, um documento histórico sobre Lajedo, cuja emancipação política teve fundamental contribuição de sua parte. Até hoje, o nome Dourado é símbolo de poder e popularidade ao mesmo tempo. Ao escolher Lajedo para exercer a medicina, “doutor Dourado” não imaginava o que o futuro lhe preparava.
“A primeira impressão que tive do lugar foi de encantamento, pois achava Lajedo muito parecida com Olinda, onde morava, por suas areias brancas e seus cajueiros”, diz. Fez planos de ter uma fazenda em Lajedo e trabalhar em Recife, mas ao ter conhecimento das necessidades da população, acabou ficando com o intuito de ajudá-las, através da medicina. “Quis ajudar esta terra e fiquei aqui. Fui ficando”, justifica com simplicidade, o primeiro médico a trabalhar em Lajedo, que na época era distrito de Canhotinho.
Segundo ele, a política entrou em sua vida através de um momento marcante que ele vivenciou. Aconteceu uma forte trovoada em Lajedo e ele se deparou com a horrível cena de corpos em decomposição e esqueletos humanos boiando na água. Diante dessa situação, ele foi solicitar ao prefeito de Canhotinho que financiasse a construção de um cemitério. O prefeito concedeu o dinheiro e, quando a construção acabou, Antonio Dourado foi à prefeitura devolver o dinheiro que restou.
Aquela atitude foi inédita (talvez até hoje) e chamou a atenção de diversas pessoas que o convidaram para ser candidato a prefeito de Canhotinho. Ele disputou e obteve uma esmagadora vitória nas urnas instaladas em Lajedo. Porém, o seu adversário político contestou o resultado e a eleição acabou sendo anulada. Antonio Dourado foi considerado derrotado.
Contrariado após a derrota, “doutor Dourado” procurou Barbosa Lima Sobrinho, então governador de Pernambuco para que interviesse no caso. O governador, entretanto, o aconselhou a esquecer a derrota e fazer de Lajedo um município autônomo. E assim, com o apoio do governo do Estado, Antonio Dourado conseguiu realizar a emancipação política de Lajedo em 1947.
Na primeira eleição do município, ele recusou o convite. Mas, nas eleições seguintes, ele acabou aceitando o convite. Sabendo de sua candidatura todos os adversários desistiram da disputa eleitoral e Antonio Dourado foi eleito com 98% dos votos, sendo o único candidato único da história de Pernambuco. Cumpriu os quatro anos de mandato e, posteriormente mais 16 anos como deputado estadual, sendo sempre eleito com grande margem de votos. Continuou exercendo a política como orientador do município, acompanhando de perto todas as campanhas eleitorais e também os mandatos de seus filhos, o deputado Marcantônio Dourado e o atual prefeito Antonio João Dourado (eleito pela terceira vez) e aconselhando-os sempre antes de cada decisão.
Conselhos são algo, que sem dúvida, muitos não hesitaram em lhe pedir. A lucidez sempre lhe foi uma virtude que impressionava a todos que o conheciam. Porém, se a mente era sã (e bastante), o corpo ultimamente já não era tanto. Sua aparência frágil revelava que a saúde já não estava das melhores. Na época desta entrevista, seus movimentos já estavam um pouco limitados. E após ter ficado viúvo, também tinha ficado mais caseiro. Por isso, passava os dias na varanda, especialmente equipada para lhe proporcionar conforto.
Foi assim, na varanda, que “doutor Dourado” me recebeu para conceder esta entrevista exclusiva onde revelou um pouco de sua rotina diária, suas paixões e sua opinião a respeito de assuntos como religião e longevidade, além de acontecimentos marcantes vividos por ele. Surpreendi-me com sua excelente memória, capaz de narrar com rica precisão de detalhes fatos ocorridos há décadas.
Sentado em seu ‘divã’, ele podia acompanhar a rotina da Fazenda Eldorado, onde vivia desde 1937. Diariamente lia jornais regionais e assistia aos noticiários e programas esportivos na TV, para estar sempre informado de tudo o que acontecia. Seu lazer incluía conversar com os amigos, os filhos, ler obras da Literatura Brasileira, como José de Alencar, Machado de Assis ou Castro Alves ou assistir aos jogos do Sport. “Se o jogo não estiver passando na televisão, eu acompanho pelo rádio. Só não deixo de acompanhar, mesmo que esteja acontecendo à meia noite!”, explicou entusiasmado, o fanático torcedor rubro-negro.
Antonio Dourado chegou a ser campeão pelo Sport, em 1928. Em 1931 jogou no Clube de Regatas Flamengo o que lhe rendeu o convite para jogar na Seleção Brasileira na Europa. Ele recusou o convite, pois precisava terminar os estudos. Depois, disputou o campeonato baiano pelo Vitória e foi Campeão Brasileiro pela Seleção Baiana em 1934. Ele revela ainda que, mesmo jogando em outros clubes, seu amor pelo Sport sempre permaneceu. “Só joguei pelo Flamengo e pelo Vitória, porque ambos são times rubro-negros, assim como o meu Sport”, declarou.
Mas a carreira esportiva não parou por aí. Quando “doutor Dourado” veio morar em Lajedo, jogou na Seleção de Garanhuns e também formou uma seleção em Lajedo, que vencia todas as cidades vizinhas. Ao ser perguntado se o fato de ter sido esportista é o segredo da sua longevidade, ele respondeu que o esporte lhe ajudou a vencer na vida e completou: “Tenho impressão que pelas amizades que tive é que vivi tão bem. Nunca tive inimizades. Acredito que Deus foi bondoso comigo por me fazer viver tantos anos. E muito bem vividos. Gosto muito da minha vida. Acho bom viver e agradeço a Deus todo dia.”, comentou.
Percebi na varanda um oratório com diversas imagens de santos sob uma foto dele e de sua esposa quando eram mais jovens. Perguntei se ele era uma pessoa religiosa, mas ele explicou que o oratório era em homenagem a sua esposa falecida, que era uma católica fervorosa. “Freqüentava as missas com a minha esposa, mas quando ela se foi parei de ir. Mas acredito em todas as religiões que conduzam o homem para o bem. Para mim não importa o caminho desde que leve o homem a Deus e o estimule a fazer coisas boas”, acrescentou.
Maria da Penha Dourado, com quem se casou em 1950 deixou uma lembrança inesquecível para ele, que a definia como uma grande companheira e mãe exemplar. A generosidade é a principal virtude que ele citava quando ouvia o nome de sua falecida esposa. “Assim era minha esposa, a bondade personificada”, disse.
Sua esposa era lajedense, então pergunto se esse foi um presente que Lajedo lhe proporcionou: ter conhecido sua esposa. Ele acrescentou que, além disso, em Lajedo pôde entrar em contato com o povo e exercer a sua profissão, o que foi o momento mais feliz de sua vida. “Lajedo semeou minha vontade de praticar o bem comum”, comentou com simplicidade. E continuou: “Foi aqui que aprendi a ser correto, a ser honesto. O povo daqui não me ensinou letras, mas me ensinou a ter palavra. Tudo de bom que eu aprendi foi aqui em Lajedo.”
A trajetória deste sertanejo nascido em Nazaré da Mata, que veio exercer medicina numa terra do interior e a transformou município autônomo é, com certeza, memorável. E é impossível contar a história de Lajedo, sem mencionar seu nome. Embora, para a maioria dos lajedenses, Antonio Dourado Cavalcanti, pode ser lembrado não somente como uma importante figura política, mas quase um mito: o “doutor Dourado”.

* Fotos: Eraldo Nogueira/Divulgação

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