Pouco antes de zarpar do porto inglês de Southampton à caminho de New York, nos EUA, naquela que seria a sua viagem inaugural, o comandante do Titanic repetiu para algumas pessoas que estavam ao seu redor, uma frase dita semanas antes pelo engenheiro naval projetor do navio -Thomas Andrews- para repórteres britânicos: “Nem Deus é capaz de afundar o Titanic!”
Na congelante madrugada de 15 de abril de 1912, o “inafundável” gigante de 296m de comprimento e pesando mais de 46.000 toneladas, naufragou e vitimou 1.523, das 2.240 pessoas que estavam a bordo, numa das maiores catástrofes marítimas de todos os tempos. Este episódio irá completar 100 anos e, como foi romanceado diversas vezes por Hollywood, é sempre lembrado.
No entanto, no Oceano Índico, no ano de 1812, um outro naufrágio vitimou mais de mil pessoas e a história desta embarcação que tinha bandeira turca -o Navio Odejal- é muito parecida com o enredo do Titanic.
A exemplo do Titanic, o Odejal, de tão imenso, estava subdividido em classes hierárquicas e administrativas, tal qual os moldes de uma cidade: tinha o capitão, o homem da palavra final no navio (correspondente ao prefeito), tinha o primeiro-oficial, responsável por coordenar todos os serviços no navio (uma espécie de secretário de administração), tinha dois sub-tenentes, responsáveis por fiscalizar se as leis marítimas estavam sendo cumpridas à bordo (ou seja, como se fossem dois vereadores), tinha o navegador de bordo, responsável pelo bom desempenho do navio (ou seja, como se fossem os secretários de governo), tinha o engenheiro-chefe, responsável pela manutenção da estrutura do transatlântico (como um secretário de obras), tinha o relações públicas, que era encarregado de deixar a par de tudo tanto o capitão, quanto a tripulação e os passageiros (numa administração séria isto existe), tinha um enfermeiro-chefe, enfim, era como que uma cidade flutuante, rumando para a Austrália, em 04 de novembro de 1812.
Tal qual no Titanic, o navio turco Odejal possuía, entre as mais de mil pessoas a bordo, três subdivisões de classe: os passageiros classe “A” (os mais ricos e a tripulação, que ficavam no segundo andar, em camarotes de luxo), os de classe “B” (seria a classe média, que ficava no primeiro andar em camarotes simples) e os classe “C” (aqueles que viajavam à preços módicos e eram alojados no porão, onde também ficavam os que trabalhavam na caldeira do navio, os faxineiros, cozinheiros, camareiras, enfim, a classe menos favorecida economicamente).
A história narra que o Titanic colidiu com um iceberg e no caso do Odejal o naufrágio teria acontecido em virtude de um incêndio no convés, que se alastrou e não pôde ser contido, matando quase todos os passageiros e toda a tripulação.
A série de coincidências parece terminar por aí, posto que relatos dos poucos sobreviventes do Navio Odejal mostram que o incêndio teria sido o ápice de uma série de erros e atitudes tomadas pela tripulação da embarcação turca. São relatos quase que ultra-secretos, posto que o governo turco nunca permitiu que os fatos reais viessem à tona.
Mas a verdade é que o Odejal foi alvo de algo muito pior que um incêndio: foi vítima do descaso, da prepotência, da arrogância, da incompetência e da corrupção de sua tripulação.
Provas irrefutáveis mostram que o capitão Johann Golden, naquela viagem rumo à Austrália, demonstrava explicitamente não estar nenhum pouco preocupado com os destinos do navio e o motivo seria seu descontentamento com a nau, porque o mesmo, que era de família rica e tradicional, considerava o Odejal modesto demais para uma pessoa de sua estirpe; sua intenção era clara: comandar uma embarcação maior, que lhe desse “poder” e “projeção”.
Outro câncer em metástase crônico enfrentado pelo Navio era a corrupção. Por incrível que possa parecer, naquele pequeno espaço ocupado por 1000 passageiros e mais 36 tripulantes a corrupção e o autoritarismo corriam soltos; eis os maiores problemas, segundo relatos da época:
• funcionários fantasmas, que constavam da folha de pagamento do governo turco como se trabalhassem no Odejal e sequer subiam a bordo para trabalhar, sendo certo que dividiam seus proventos com os oficiais corruptos do navio.
• a maioria das licitações era fraudulenta. A aquisição de combustíveis e derivados era uma verdadeira vergonha. Quanto ao desvio de dinheiro nas obras, esta era conhecida.
• a perseguição a funcionários por parte do primeiro-oficial, que desejava ardentemente que a jornada de trabalho fosse aumentada, sem aumentar os salários dos marujos.
• a falta de investimentos nas acomodações da enfermaria; quem passasse mal em alto mar teria que contar com a proteção divina, pois não havia médicos.
O que mais revoltava no caso do Odejal era que os dois sub-tenentes (os vereadores) que integravam o navio e tinham toda a autoridade para relatarem diretamente estes problemas ao governo turco, simplesmente nada faziam, ou melhor faziam sim, a cada quatro anos reuniam-se para barganhar seus aumentos salariais; fiscalizar e denunciar irregularidades estava distante de seus intentos. Eram verdadeiras lesmas à serviço do capitão e de seus interesses pessoais.
Outro fato lamentável: os passageiros das classes “B” e “C”, que consistiam na maioria do Odejal, que poderiam juntos mudar esta situação (pedindo ao governo que elegesse outro capitão) eram alvo de manipulação e de intimidação. Apesar de estarem navegando no mesmo barco, pareciam ignorar completamente a situação e os poucos que ousavam discordar da tripulação ou eram comprados ou, gentilmente, convidados a desembarcar no primeiro porto.
Nesse clima altamente poluído, naquele fatídico 4 de novembro de 1812, a tripulação estava comemorando mais uma lucrativa viagem (dinheiro de caixa 2 em seus bolsos) no camarote do capitão e, de tão embriagados, não perceberam o incêndio a tempo de contê-lo. Naufragaram!
Não venho aqui semear pessimismo e nem quero ser um “profeta do apocalipse”, mas não é curioso como a cada cem anos (Odejal 1812 - Titanic 1912) um grande naufrágio acontece em alguma parte do planeta? Será que em 2012 haverá alguma outra catástrofe? Se você, dileto leitor, está neste momento navegando em algum “barco” e este parece não ter um destino muito certo, eu lhe advirto: tome muito cuidado, use o senso crítico e perceba se a tripulação não está agindo igual à do Odejal. Se tiver você tem duas opções: naufragar resignadamente ou mudar, enquanto é tempo, a tripulação, começando pelo capitão e sem esquecer de extirpar todos os sub-tenentes.
Na congelante madrugada de 15 de abril de 1912, o “inafundável” gigante de 296m de comprimento e pesando mais de 46.000 toneladas, naufragou e vitimou 1.523, das 2.240 pessoas que estavam a bordo, numa das maiores catástrofes marítimas de todos os tempos. Este episódio irá completar 100 anos e, como foi romanceado diversas vezes por Hollywood, é sempre lembrado.
No entanto, no Oceano Índico, no ano de 1812, um outro naufrágio vitimou mais de mil pessoas e a história desta embarcação que tinha bandeira turca -o Navio Odejal- é muito parecida com o enredo do Titanic.
A exemplo do Titanic, o Odejal, de tão imenso, estava subdividido em classes hierárquicas e administrativas, tal qual os moldes de uma cidade: tinha o capitão, o homem da palavra final no navio (correspondente ao prefeito), tinha o primeiro-oficial, responsável por coordenar todos os serviços no navio (uma espécie de secretário de administração), tinha dois sub-tenentes, responsáveis por fiscalizar se as leis marítimas estavam sendo cumpridas à bordo (ou seja, como se fossem dois vereadores), tinha o navegador de bordo, responsável pelo bom desempenho do navio (ou seja, como se fossem os secretários de governo), tinha o engenheiro-chefe, responsável pela manutenção da estrutura do transatlântico (como um secretário de obras), tinha o relações públicas, que era encarregado de deixar a par de tudo tanto o capitão, quanto a tripulação e os passageiros (numa administração séria isto existe), tinha um enfermeiro-chefe, enfim, era como que uma cidade flutuante, rumando para a Austrália, em 04 de novembro de 1812.
Tal qual no Titanic, o navio turco Odejal possuía, entre as mais de mil pessoas a bordo, três subdivisões de classe: os passageiros classe “A” (os mais ricos e a tripulação, que ficavam no segundo andar, em camarotes de luxo), os de classe “B” (seria a classe média, que ficava no primeiro andar em camarotes simples) e os classe “C” (aqueles que viajavam à preços módicos e eram alojados no porão, onde também ficavam os que trabalhavam na caldeira do navio, os faxineiros, cozinheiros, camareiras, enfim, a classe menos favorecida economicamente).
A história narra que o Titanic colidiu com um iceberg e no caso do Odejal o naufrágio teria acontecido em virtude de um incêndio no convés, que se alastrou e não pôde ser contido, matando quase todos os passageiros e toda a tripulação.
A série de coincidências parece terminar por aí, posto que relatos dos poucos sobreviventes do Navio Odejal mostram que o incêndio teria sido o ápice de uma série de erros e atitudes tomadas pela tripulação da embarcação turca. São relatos quase que ultra-secretos, posto que o governo turco nunca permitiu que os fatos reais viessem à tona.
Mas a verdade é que o Odejal foi alvo de algo muito pior que um incêndio: foi vítima do descaso, da prepotência, da arrogância, da incompetência e da corrupção de sua tripulação.
Provas irrefutáveis mostram que o capitão Johann Golden, naquela viagem rumo à Austrália, demonstrava explicitamente não estar nenhum pouco preocupado com os destinos do navio e o motivo seria seu descontentamento com a nau, porque o mesmo, que era de família rica e tradicional, considerava o Odejal modesto demais para uma pessoa de sua estirpe; sua intenção era clara: comandar uma embarcação maior, que lhe desse “poder” e “projeção”.
Outro câncer em metástase crônico enfrentado pelo Navio era a corrupção. Por incrível que possa parecer, naquele pequeno espaço ocupado por 1000 passageiros e mais 36 tripulantes a corrupção e o autoritarismo corriam soltos; eis os maiores problemas, segundo relatos da época:
• funcionários fantasmas, que constavam da folha de pagamento do governo turco como se trabalhassem no Odejal e sequer subiam a bordo para trabalhar, sendo certo que dividiam seus proventos com os oficiais corruptos do navio.
• a maioria das licitações era fraudulenta. A aquisição de combustíveis e derivados era uma verdadeira vergonha. Quanto ao desvio de dinheiro nas obras, esta era conhecida.
• a perseguição a funcionários por parte do primeiro-oficial, que desejava ardentemente que a jornada de trabalho fosse aumentada, sem aumentar os salários dos marujos.
• a falta de investimentos nas acomodações da enfermaria; quem passasse mal em alto mar teria que contar com a proteção divina, pois não havia médicos.
O que mais revoltava no caso do Odejal era que os dois sub-tenentes (os vereadores) que integravam o navio e tinham toda a autoridade para relatarem diretamente estes problemas ao governo turco, simplesmente nada faziam, ou melhor faziam sim, a cada quatro anos reuniam-se para barganhar seus aumentos salariais; fiscalizar e denunciar irregularidades estava distante de seus intentos. Eram verdadeiras lesmas à serviço do capitão e de seus interesses pessoais.
Outro fato lamentável: os passageiros das classes “B” e “C”, que consistiam na maioria do Odejal, que poderiam juntos mudar esta situação (pedindo ao governo que elegesse outro capitão) eram alvo de manipulação e de intimidação. Apesar de estarem navegando no mesmo barco, pareciam ignorar completamente a situação e os poucos que ousavam discordar da tripulação ou eram comprados ou, gentilmente, convidados a desembarcar no primeiro porto.
Nesse clima altamente poluído, naquele fatídico 4 de novembro de 1812, a tripulação estava comemorando mais uma lucrativa viagem (dinheiro de caixa 2 em seus bolsos) no camarote do capitão e, de tão embriagados, não perceberam o incêndio a tempo de contê-lo. Naufragaram!
Não venho aqui semear pessimismo e nem quero ser um “profeta do apocalipse”, mas não é curioso como a cada cem anos (Odejal 1812 - Titanic 1912) um grande naufrágio acontece em alguma parte do planeta? Será que em 2012 haverá alguma outra catástrofe? Se você, dileto leitor, está neste momento navegando em algum “barco” e este parece não ter um destino muito certo, eu lhe advirto: tome muito cuidado, use o senso crítico e perceba se a tripulação não está agindo igual à do Odejal. Se tiver você tem duas opções: naufragar resignadamente ou mudar, enquanto é tempo, a tripulação, começando pelo capitão e sem esquecer de extirpar todos os sub-tenentes.









