À medida que fui crescendo meu pai parou de contar histórias da carochinha e passou a relatar fatos e curiosidades ocorridas em sua vida. Uma das histórias que mais me impressionou está ligada a um aparelho de rádio. Sempre que ele contava eu o interpelava no final se a história era verdadeira mesmo. Ele sempre sorria indefectivelmente e dizia que sim. Hoje, passados alguns anos de sua partida deste mundo, aquela narrativa ainda me comove e me leva a refletir.
Sinceramente eu nunca descobri se os fatos realmente aconteceram ou se tudo não passava de uma fábula ou mesmo um causo ouvido por ele da boca de meu avô, o certo é que a história é tão interessante que, hoje, resolvi compartilhá-la com os diletos leitores.
Tudo se deu no sítio onde ele morava quando criança, mais precisamente no Sítio Laje do Aflito, que fica incrustado no Município de Rochedo Branco, distante uns 196 Km da capital do Estado, lugar que, aliás, chamava-se “Rochedo Preto”, mas o povo do lugar cansou do “preto” e decidiu mudar para o “branco”, até que o nome pegou e ficou, isto há uns 15 ou 16 anos.
Pois bem, na primeira metade do século passado, mais precisamente nos idos de 1939, um morador daquelas cercanias voltou de uma viagem que fez à capital com um objeto que, logo, se converteria no centro de uma grande polêmica.
Tratava-se de um aparelho de Rádio “TELEFUNKEN”, modelo “T9 W”, produzido na Alemanha alguns anos antes, funcionando com meia dúzia de pilhas ou em 220voltz, se houvesse energia (o que não era o caso daquele lugar). O “bichinho falante”, como ficou conhecido no sítio, possuía um sistema de sintonia tão avançado que lhe permitia sintonizar a Rádio BBC de Londres, a RAI da Itália, uma estação da África do Sul, várias de São Paulo e do Estado da Guanabara (atual RJ), entre outras. No entanto, a estação mais ouvida era a Rádio Clube de Pernambuco e aí não havia nenhum bairrismo, posto que era reconhecida a liderança na audiência da Rádio Clube até início dos anos 70, graças a qualidade de transmissão e ótima programação, numa época em que não existiam televisões e, praticamente, toda informação (ao menos a que chegava aos rincões deste país afora) advinha do Rádio.
Após a chegada do rádio os homes do Sítio Laje do Aflito adquiriram um hábito: religiosamente, às 17:00h, reuniam-se todos no alpendre da casa de seu Adeílzo (o dono do aparelho) para ouvir o tal rádio. Era uma animação só: das 17 às 18:00h era o noticiário, com fatos ocorridos em Pernambuco, no Brasil e no mundo. Das 18 às 19:00h vinha um programa altamente polêmico intitulado: “Solta a voz, meu povo!”, apresentado por um sujeito que gritava muito (meu pai lembrava), que aparentemente não se intimidava com o contexto político da época¹ e noticiava todas as mazelas e os desmandos que Getúlio Vargas vinha perpetrando no país. Às 19:00h começava a “Voz do Brasil”, recém criado por Getúlio Vargas.
O tal apresentador, Paulo Melo, logo tornou-se persona non grata para boa parte dos ouvintes, dado à grande influência que o getulismo ainda exercia na população, mormente nas camadas menos informadas. Na Laje do Aflito a polêmica não foi menor, posto que a maioria dos moradores não concordava com as notícias advindas pelas ondas do rádio, que davam conta de que Vargas estava governando o país de forma ditatorial e inconsequente. Para piorar, o “Solta a voz, meu povo” criticava abertamente o governador Agamenon Magalhães e o prefeito Antero Joaquim Dias, por apoiarem incondicionalmente Vargas e seus posicionamentos, de forma que parte dos ouvintes foi se enchendo de fúria e revolta, a ponto de alguns, mais inflamados, começarem a ir embora da casa do Adeílzo logo que terminava o programa das 17:00h. O problema é que os que ficavam ouviam atentamente o programa e depois discutiam entre si a situação política do país, de forma que aos poucos, e timidamente, um grupo começou a questionar se o getulismo estava sendo mesmo bom para o país. E foi esse questionamento que começou a incomodar os moradores mais, digamos, poderosos do Sítio Laje do Aflito, que não concebiam que alguém falasse mal de Getúlio Vargas, de Agamenon Magalhães ou do prefeito!
Certo dia a coisa saiu do controle, pois o grande grupo (uns 15 homens) quis impingir aos demais (uns 8) que desligasse o rádio assim que terminasse o programa de entretenimento, ou seja, quiseram impedir os outros de ouvirem o “Solta a voz, meu povo”. Foi preciso o Seu Adeílzo se impor e repelir os revoltosos, de forma que, a partir daquele dia, criou-se dois grupos no Sítio Laje do Aflito: os que ouviam o programa e questionavam o governo e os que detestavam o Seu Adeílzo, por ser um “criticador dos nossos líderes” e “não amar a pátria”.
A coisa foi ganhando dimensão e, primeiro, fizeram um abaixo-assinado e levaram para o delegado, que não encontrou nenhuma brecha na lei para forçar o desligamento do rádio, depois foram ao padre pedir que aconselhasse o dono do rádio; também não adiantou. Uma comitiva foi ao gabinete do prefeito pedir que comunicassem o ocorrido ao Palácio Campo das Princesas, que, por sua vez, comunicasse ao Palácio do Catete, a fim de dar um jeito e calar o apresentador Paulo Melo, o que também se mostrou infrutífero.
A história mostra que Getúlio Vargas ficou no poder por vários anos e que Agamenon terminou seu mandato tranquilamente, mas o que chama atenção nesta, despretensiosa, história é o fato de que, quanto mais os poderosos do Sítio Laje do Aflito faziam para que ninguém ouvisse o programa “Solta a voz, meu povo!”, mais aumentava a audiência, posto que, no final do ano, era enorme o número de pessoas –e desta vez homens, mulheres e adolescentes– que tomaram gosto pelo programa e começaram a questionar o contexto político brasileiro, pernambucano e local, tanto que o prefeito Antero Joaquim Dias, mesmo numa eleição repleta de jagunços seus, não conseguiu intimidar a população e não se reelegeu, saindo de cena.
Se aquele programa de rádio não foi capaz de revolucionar o país, dado à força das oligarquias que comandavam o Brasil na metade do século XX, no Sítio Laje do Aflito um simples rádio de pilhas fez uma grande revolução: foi capaz de despertar o senso crítico em cidadãos e cidadãs humildes, a maioria analfabetos e com pouco poder aquisitivo.
Como já disse, meu pai já não está mais fisicamente aqui entre nós para que eu possa, ao menos agora, que vou tornar público este caso, questionar uma última vez se o fato foi ou não real, mas quer saber de uma coisa: o mais importante disto tudo foi a lição a mim passada e o despertar de uma conscientização que, acredito, perdura até hoje.
A propósito: passados 70 anos, lamentavelmente ainda vemos gente se incomodando com os “rádios atuais” e tentando, às vezes com manobras inescrupulosas, silenciá-los... deixa não Seu Adeílzo!
¹O Presidente Vargas comandava a nação graças a um golpe de Estado dado dois anos antes, com o fim de seu mandato constitucional. O Governador de Pernambuco era Agamenon Magalhães, que, sendo aliado fiel, foi nomeado “interventor federal” em Pernambuco, assim que Vargas cria o “Estado Novo” em 1937. O Prefeito de Rochedo Branco, Antero Joaquim Dias, era um ferrenho defensor de Getúlio Vargas e de Agamenon Magalhães.
Sinceramente eu nunca descobri se os fatos realmente aconteceram ou se tudo não passava de uma fábula ou mesmo um causo ouvido por ele da boca de meu avô, o certo é que a história é tão interessante que, hoje, resolvi compartilhá-la com os diletos leitores.
Tudo se deu no sítio onde ele morava quando criança, mais precisamente no Sítio Laje do Aflito, que fica incrustado no Município de Rochedo Branco, distante uns 196 Km da capital do Estado, lugar que, aliás, chamava-se “Rochedo Preto”, mas o povo do lugar cansou do “preto” e decidiu mudar para o “branco”, até que o nome pegou e ficou, isto há uns 15 ou 16 anos.
Pois bem, na primeira metade do século passado, mais precisamente nos idos de 1939, um morador daquelas cercanias voltou de uma viagem que fez à capital com um objeto que, logo, se converteria no centro de uma grande polêmica.
Tratava-se de um aparelho de Rádio “TELEFUNKEN”, modelo “T9 W”, produzido na Alemanha alguns anos antes, funcionando com meia dúzia de pilhas ou em 220voltz, se houvesse energia (o que não era o caso daquele lugar). O “bichinho falante”, como ficou conhecido no sítio, possuía um sistema de sintonia tão avançado que lhe permitia sintonizar a Rádio BBC de Londres, a RAI da Itália, uma estação da África do Sul, várias de São Paulo e do Estado da Guanabara (atual RJ), entre outras. No entanto, a estação mais ouvida era a Rádio Clube de Pernambuco e aí não havia nenhum bairrismo, posto que era reconhecida a liderança na audiência da Rádio Clube até início dos anos 70, graças a qualidade de transmissão e ótima programação, numa época em que não existiam televisões e, praticamente, toda informação (ao menos a que chegava aos rincões deste país afora) advinha do Rádio.
Após a chegada do rádio os homes do Sítio Laje do Aflito adquiriram um hábito: religiosamente, às 17:00h, reuniam-se todos no alpendre da casa de seu Adeílzo (o dono do aparelho) para ouvir o tal rádio. Era uma animação só: das 17 às 18:00h era o noticiário, com fatos ocorridos em Pernambuco, no Brasil e no mundo. Das 18 às 19:00h vinha um programa altamente polêmico intitulado: “Solta a voz, meu povo!”, apresentado por um sujeito que gritava muito (meu pai lembrava), que aparentemente não se intimidava com o contexto político da época¹ e noticiava todas as mazelas e os desmandos que Getúlio Vargas vinha perpetrando no país. Às 19:00h começava a “Voz do Brasil”, recém criado por Getúlio Vargas.
O tal apresentador, Paulo Melo, logo tornou-se persona non grata para boa parte dos ouvintes, dado à grande influência que o getulismo ainda exercia na população, mormente nas camadas menos informadas. Na Laje do Aflito a polêmica não foi menor, posto que a maioria dos moradores não concordava com as notícias advindas pelas ondas do rádio, que davam conta de que Vargas estava governando o país de forma ditatorial e inconsequente. Para piorar, o “Solta a voz, meu povo” criticava abertamente o governador Agamenon Magalhães e o prefeito Antero Joaquim Dias, por apoiarem incondicionalmente Vargas e seus posicionamentos, de forma que parte dos ouvintes foi se enchendo de fúria e revolta, a ponto de alguns, mais inflamados, começarem a ir embora da casa do Adeílzo logo que terminava o programa das 17:00h. O problema é que os que ficavam ouviam atentamente o programa e depois discutiam entre si a situação política do país, de forma que aos poucos, e timidamente, um grupo começou a questionar se o getulismo estava sendo mesmo bom para o país. E foi esse questionamento que começou a incomodar os moradores mais, digamos, poderosos do Sítio Laje do Aflito, que não concebiam que alguém falasse mal de Getúlio Vargas, de Agamenon Magalhães ou do prefeito!
Certo dia a coisa saiu do controle, pois o grande grupo (uns 15 homens) quis impingir aos demais (uns 8) que desligasse o rádio assim que terminasse o programa de entretenimento, ou seja, quiseram impedir os outros de ouvirem o “Solta a voz, meu povo”. Foi preciso o Seu Adeílzo se impor e repelir os revoltosos, de forma que, a partir daquele dia, criou-se dois grupos no Sítio Laje do Aflito: os que ouviam o programa e questionavam o governo e os que detestavam o Seu Adeílzo, por ser um “criticador dos nossos líderes” e “não amar a pátria”.
A coisa foi ganhando dimensão e, primeiro, fizeram um abaixo-assinado e levaram para o delegado, que não encontrou nenhuma brecha na lei para forçar o desligamento do rádio, depois foram ao padre pedir que aconselhasse o dono do rádio; também não adiantou. Uma comitiva foi ao gabinete do prefeito pedir que comunicassem o ocorrido ao Palácio Campo das Princesas, que, por sua vez, comunicasse ao Palácio do Catete, a fim de dar um jeito e calar o apresentador Paulo Melo, o que também se mostrou infrutífero.
A história mostra que Getúlio Vargas ficou no poder por vários anos e que Agamenon terminou seu mandato tranquilamente, mas o que chama atenção nesta, despretensiosa, história é o fato de que, quanto mais os poderosos do Sítio Laje do Aflito faziam para que ninguém ouvisse o programa “Solta a voz, meu povo!”, mais aumentava a audiência, posto que, no final do ano, era enorme o número de pessoas –e desta vez homens, mulheres e adolescentes– que tomaram gosto pelo programa e começaram a questionar o contexto político brasileiro, pernambucano e local, tanto que o prefeito Antero Joaquim Dias, mesmo numa eleição repleta de jagunços seus, não conseguiu intimidar a população e não se reelegeu, saindo de cena.
Se aquele programa de rádio não foi capaz de revolucionar o país, dado à força das oligarquias que comandavam o Brasil na metade do século XX, no Sítio Laje do Aflito um simples rádio de pilhas fez uma grande revolução: foi capaz de despertar o senso crítico em cidadãos e cidadãs humildes, a maioria analfabetos e com pouco poder aquisitivo.
Como já disse, meu pai já não está mais fisicamente aqui entre nós para que eu possa, ao menos agora, que vou tornar público este caso, questionar uma última vez se o fato foi ou não real, mas quer saber de uma coisa: o mais importante disto tudo foi a lição a mim passada e o despertar de uma conscientização que, acredito, perdura até hoje.
A propósito: passados 70 anos, lamentavelmente ainda vemos gente se incomodando com os “rádios atuais” e tentando, às vezes com manobras inescrupulosas, silenciá-los... deixa não Seu Adeílzo!
¹O Presidente Vargas comandava a nação graças a um golpe de Estado dado dois anos antes, com o fim de seu mandato constitucional. O Governador de Pernambuco era Agamenon Magalhães, que, sendo aliado fiel, foi nomeado “interventor federal” em Pernambuco, assim que Vargas cria o “Estado Novo” em 1937. O Prefeito de Rochedo Branco, Antero Joaquim Dias, era um ferrenho defensor de Getúlio Vargas e de Agamenon Magalhães.









