Crítica Cidadã, por Expedito Alexandre: A Falsa Miséria Estatística

Postado por O Jornal
01 de Outubro de 2011
Para o professor José de Souza Martins, sociólogo e professor emérito da USP, análises meramente econômicas e numéricas ignoram a poderosa tendência do pobre de compartilhar e ajudar. Para ele, a opinião pública foi abastecida com indicadores opostos sobre a situação material dos brasileiros. Os dados do Censo 2010, que balizam as ações do novo programa governamental Brasil sem Misérias, computam 16,267 milhões de miseráveis, 8,5% da população brasileira, uma Holanda inteira, gente cuja renda familiar mensal, quando muito, alcança R$ 70. No interior desse grupo há até os miseráveis dos miseráveis, aqueles cuja renda é de até R$ 39 por mês. E arremata: “É preciso não confundir a estatística da miséria com a miséria da estatística.”
Ninguém dá pra perder uma discussão com os números do seu lado. Quem tem dados numéricos parece sempre saber do que fala. E, como discussões tendem a se prolongar quando ninguém sabe nada sobre o assunto em pauta, pode-se simplesmente inventar um número para encerrar a pendenga. Basta dizer que se leu no jornal, viu na Discovery, ou numa revista científica qualquer. Pronto, está garantida a palavra final na maioria das discussões inúteis do dia a dia.
A maioria das pessoas odeia matemática desde muito tempo para se arriscar numa discussão com números. Quem for mais sagaz e inventar seu argumento numérico primeiro, ganha o debate (não só, até um prêmio).
É claro que há 80% mais chance de um raio cair na sua cabeça do que um meteoro. Eu li no jornal.
E não há a menor necessidade de justificar a pesquisa, esclarecer sobre os critérios adotados, quem realizou, ou quando foi realizada, basta falar com convicção e citar uma fonte que lhe garanta autoridade.
Estreitando o tema de nossa Crítica Cidadã, não dá pra acreditar, por exemplo, em gestão democrática nas escolas de nossa cidade, maquiada por indicação política, com manifestação de apreço e subserviência ao “Chefe”; na saúde, falta de médicos; conselhos municipais dirigidos por “agentes” de cargos de ”confiança”.
De todas as patifarias, a maior é a pesquisa de opinião. Sempre partindo do pressuposto da mediocridade geral. Basta colher a opinião de meia dúzia para generalizarem a minha opinião, com margem de erro 2% para cima ou para baixo. Queira ou não, de uma forma ou de outra, as pesquisas de opinião nos transformam em parte de alguma maioria estúpida.

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