As memórias do Professor Antônio Vilaça

Postado por Antônio Vilaça (*) / Jornal Lajedo Hoje
01 de Junho de 2010

LAJEDO (Conclusão)

Vai João Sobral para Canhotinho, a fim de relatar os fatos, dando-lhes cores fortes. Por sinal nem precisava de carregar muito nas tintas porque o chefe político de Canhotinho, Joaquim de Almeida, e o Delegado de Polícia, Félix Cantalice, dantistas, tinham Capitu atravessado na garganta. Era também inimigo rancoroso de Capitu o comerciante e prestigioso político de Angelim, Miguel Calado Borba.
Preparado o “angu” voltou João Sobral para Lajedo anunciando nas esquinas, “novidades” que estavam para acontecer. Capitu de tudo era informado. Mas não receava seus inimigos. Na madrugada de 20 de novembro de 1915, chegam a Lajedo o “comandante” Quatro Quinas e os soldados Torrão de Gogo, Antônio Alves Feitosa e Damásio Pedrosa do Nascimento, dizem que, tendo na retaguarda Pedrão, um cabra que não envergava, a mando de Miguel Calado Borba.
Ao amanhecer do dia, em outra coisa não se falava e nada de bom se esperava na vila de Lajedo, onde se encontrava a tropa de bodega em bodega esquentando o quengo, dizendo claramente a que vinha: levar Capitu algemado para Canhotinho, a pé, como um preso vulgar.
João Pereira de Gouveia Torres Galindo, pai de Capitu, era Tenente-Coronel, título conseguido na Guerra do Paraguai, onde lutara. Capitu lograra um posto além. Era Coronel da mesma Guarda Nacional. Vestiu a farda que seu pai honrou, e sem nada temer, foi abrir seu estabelecimento comercial, uma casa de três portas, na Rua de Santo António, a principal da localidade. Eram oito horas, mais ou menos, quando a milícia se dirigiu para a casa de Capitu, de armas engatilhadas. Deu voz de prisão, mas Capitu alegando sua patente, retrucou que eles não podiam prendê-lo. Sem dar uma palavra, a polícia abriu fogo contra Anum que cai no chão, de cima de uma escada onde arrumava garrafas numa prateleira.
Enquanto uns atiravam em Anum, outros atingiam Capitu, morrendo os dois na mesma hora. A polícia, então, continuou atirando nas prateleiras e o sangue das vítimas, misturado à “zinebra” e cerveja, veio para o meio da rua encharcar a via pública. A cidadezinha trancou-se, no tiroteio, e só se abriram as primeiras portas timidamente, no dia seguinte para o enterro das duas vítimas, quando os policiais já não se encontravam presentes, e o povo mais ou menos garantido por nova autoridade enviada de Canhotinho. João Sobral desapareceu, sabendo-se que o seu destino foi S. Paulo.
O Governador Dantas Barreto cruzou os braços. Teteu que andava foragido, acusado da morte do soldado, jurou vingança, no dia do enterro do seu pai e do seu irmão.
Num sábado, a 26 de fevereiro de 1916, depois da feira, era quase noite. Estava Joaquim de Almeida em Canhotinho relatando a seu irmão Osvaldo e ao tabelião Manuel Morel os acontecimentos do dia, quando inesperadamente, Teteu aparece acompanhado de três companheiros, e sem proferir palavra atira em Joaquim de Almeida e mata Morel e Osvaldo. Conta-se que Morei, era amigo íntimo de Teteu, a quem não desejava matar, fazendo-o por engano, ou talvez pela circunstância de liquidar quem estivesse em companhia do suposto mandante da morte de seu pai.
O Governador Manuel Borba não adotou a conduta do seu antecessor. Mandou cem praças para Canhotinho e o Juiz Luiz Correia de Oliveira, com carta branca para punir os culpados e dar a Canhotinho um clima de paz, pois em guerra se vivia, desde 1911, após a queda dos resistas.
Hoje, somente vou a Lajedo por dois sentimentos: um religioso e outro familiar. Na Capela do Socorro estão sepultados os velhos e ainda no bairro moram duas irmãs, Maria e Hermínia. Não conheço se não um reduzido número de pessoas como Adalberto Alexandre, José de Sales Brasil, Dr. Dourado Cavalcanti, José Firmino Burgos, João Gomes e sua esposa Nair. Também, depois de cinquenta anos de ausência não poderia ser diferente. Mas de qualquer modo foi ali que nasci e um fato me faz querer muito bem à terra: foi que o Prefeito e a Câmara Municipal deram ao principal logradouro do bairro do Socorro o nome de Praça Dona Cecília Vilaça.
Se outras razões não houvesse para minha benquerença, Lajedo merecia toda a minha gratidão pela homenagem prestada a minha mãe.
- FIM -

(*) Antônio de Sousa Vilaça, lajedense, professor, escritor, jornalista e cooperativista. 1914/2003.

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